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Desabafo a um Companheiro Meu companheiro, agora estou sozinha. Fico horas pensando em você e concluo que foi bom ter tido você ao meu lado As lembranças enchem o ar de um cheiro agradável. Sinto meu corpo pesado, as costas doloridas. É difícil descruzar os dedos, é como se eles estivessem nessa posição há anos e não se soltassem mais. As pálpebras pesam, a pele do rosto está velha, parece estar solta, flácida, as rugas já mostram a idade avançada. Velha. Fiquei velha. Estando ao teu lado achei que nunca envelheceria e eu me orgulhava disso, como se sua presença me conservasse jovem. Mas agora, já não o tenho e envelheço rápido, como um balão de ar se esvaziando. No meio de tantas lembranças consigo relaxar nos braços da cadeira de balanço o meu corpo tenso. As lembranças continuam. Alguém fala comigo, mas é como se eu não estivesse ali. Vejo rostos e muitos olhos e braços me abraçando, mas eles só conseguem abraçar o meu corpo frágil e velho, pois, meu pensamento longe, muito longe está. Olho meu rosto. Está velho. O meu cabelo está branco. O meu pensamento se volta ao passado. Lembro-me do dia em que te conheci. Do dia em que nos casamos. Dos filhos que tivemos. Cada sonho que sonhamos. Tão poucos realizamos, mas tudo isso valeu a pena, meu companheiro. Você me deixou do lado de cá. Hoje só posso ver-te em minhas lembranças, as quais, guardarei até o fim dos meus dias. Agora estou, somente eu e minha velhice. Mas estou viva. Hoje, continuo a minha caminhada na estrada da vida, carregando nos ombros o peso da idade. Contudo, carrego com muita alegria meus 85 anos. Deles brotaram sabedoria, experiências, sofrimentos e alegrias. Mas, principalmente muito, muito respeito à vida. Hoje faço parte da terceira idade e vejo um mundo tão diferente do nosso. Vejo jovens se drogando, meninas se prostituindo, guerras matando homens e crianças, doenças, ambições. Maltratam e depositam os velhos em asilos como se fossem lixo. Sofro, pois sou velha e pequena diante desse mundo. Seria tão mais fácil o mundo em que vivemos se todos parassem e ouvissem ainda que fosse só um pouquinho, as palavras daqueles que já viveram. Ah! Meu companheiro! Hoje estou só, lembrando o passado, vivendo e sem querer saber nada do futuro. Hoje posso dizer que fui feliz, e sou muito, mas muito feliz por viver, pois outros, assim como você meu companheiro, talvez gostariam de ser chamados de “velhos” e estarem vivos. Ah! Meu companheiro! Que saudades...... Autora: Dora Rossetto Piaia
Crônica extraída do livro Poesias, Contos e Crônicas do II Concurso Literário para a Terceira Idade de 1997 - UDESC - Florianópolis - SC
De Repente Surpreendo-me sensível, vulnerável, nostálgica, falando de saudade, remoendo lembranças. Por quais Universos andarão velhos amigos e confidentes, somando vivências, desatando emoções, liberando o sentir?... E, nesta empreitada, "aqui e agora", descubro-me o somar dos anos; impõe-se ali, num frio e insensível espelho, a implacável constatação; só então, me faço saber, que a vida "escorreu", escapando-me por entre os dedos-e-respiros!... Tomada, assim, de sobressalto, titubeio!!! Perplexa experimento: desalinho, desconforto, inquietação, mortal agonia; a cabeça abagunçada, e, no peito a estrepolia. Cadê aquele verdor, que há bem pouco comigo estivera, cadê? cadê aquela lepidez? e o faiscar de olhos, que me comandaram as ações, cadê? Cadê aquela exuberância? e a garra de viver, cadê? Cadê a gana do insistir, que me sustentou até então, cadê? De repente as forças já exauridas, busco-me; toco-me, sinto-me; então, ciente de mim, Recomponho-me! Faç-me Calmaria! Remonto-me os fragmentos. Encontro a Verdade Interior. Visto por inteiro a Incontestável Realidade. Lúcida, coerente, assumo Nova Postura. Refeita, imponho-me a "conviver" com Elegância e Dignidade, o que ainda me falta completar!... E, resoluta, Senhora de Mim, prosseguir com Retidão, todo o percurso que se me apresente com a Missão de Difundir: o Otimismo, a Alegria, o Apego à Vida! enquanto no aguardo da Suprema Lufada!!! Autora: Maria Vilma Nascimento Campos Crônica extraída do livro Poesias, Contos e Crônicas do I Concurso Literário para a Terceira Idade de 1996 - UDESC - Florianópolis - SC |
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